Na Rodovia Presidente Dutra, entre os quilômetros que antecedem o entroncamento com a Fernão Dias, caminhões carregados formam filas que operadores de centros de distribuição conhecem bem. Guarulhos — município com um dos maiores parques logísticos do país — funciona como válvula de entrada para mercadorias que seguem para lojas, farmácias e e-commerces em São Paulo, Osasco, Santo André e dezenas de cidades do entorno.
O problema não é falta de demanda. É a combinação entre crescimento de volume, limitação de terrenos disponíveis e infraestrutura viária que não acompanhou o ritmo da instalação de novos CDs nas últimas duas décadas. Gestores ouvidos pela Cadeia Viva relatam atrasos de uma a duas horas na chegada de veículos nos horários de pico, especialmente entre 6h e 9h da manhã.
Janelas de recebimento cada vez mais estreitas
Para reduzir congestionamento interno, muitos embarcadores adotaram janelas de recebimento rigorosas. Transportadoras que chegam fora do horário agendado enfrentam espera em pátio externo ou precisam remarcar a entrega — o que gera custo e atrasa a reposição em loja. "A janela virou moeda de troca", diz um coordenador de operações de um CD de alimentos não perecíveis na região do Cumbica. "Quem perde o horário empurra o problema para o dia seguinte."
A prática é compreensível do ponto de vista operacional: docas limitadas, equipes de conferência enxutas e a necessidade de manter fluxo constante no armazém. Mas transportadoras de médio porte, que atendem múltiplos clientes na mesma rota, dizem que a rigidez das janelas nem sempre considera o trânsito real da região metropolitana.
Guarulhos não vai ganhar novos quilômetros quadrados de área logística da noite para o dia. O que dá para fazer é usar melhor o que já existe.
Turnos estendidos e layout revisado
Sem possibilidade imediata de ampliar galpões, operadores investem em reorganização interna. Separação por zonas, picking por ondas e consolidação de cargas em horários de menor movimento no piso são estratégias recorrentes. Alguns CDs passaram a operar em dois turnos completos, com recebimento noturno para aliviar a pressão matinal.
A Prefeitura de Guarulhos mantém diálogo com entidades do setor sobre fluxo de caminhões em vias municipais, mas soluções estruturais — como novos acessos ou faixas dedicadas — dependem de obras de longo prazo e articulação com o Estado. Enquanto isso, operadores fazem contas: cada hora de caminhão parado representa custo direto e indireto na cadeia.
Pressão sobre equipes de recebimento
O gargalo viário repercute no chão de armazém. Conferentes e operadores de empilhadeira enfrentam picos de trabalho quando vários veículos chegam quase ao mesmo tempo, após horas de espera. A qualidade da conferência pode ser afetada, e erros de recebimento geram retrabalho que ocupa docas e corredores já saturados.
Gestores de RH em Guarulhos relatam rotatividade elevada em funções de recebimento e expedição. A combinação de jornada intensa, pressão por meta e deslocamento até o município — muitas vezes longo para quem mora em periferias de São Paulo — torna a retenção de talentos um desafio paralelo ao operacional.
O que vem pela frente
Especialistas consultados pela redação apontam que a tendência é de consolidação: CDs menores podem migrar para cidades do entorno com custo de terreno menor, enquanto Guarulhos mantém operações de maior volume e proximidade com o aeroporto internacional. A integração entre modais — rodoviário e aéreo — continua sendo diferencial para cargas urgentes e e-commerce premium.
Para quem opera no dia a dia, a lição é pragmática: planejamento de rotas mais realista, comunicação transparente com transportadoras e investimento em visibilidade de estoque para evitar expedições de emergência que sobrecarregam o sistema. Guarulhos não vai ganhar novos quilômetros quadrados de área logística da noite para o dia. O que dá para fazer é usar melhor o que já existe.